"Como uma casa não tinha papel?"
A idéia não lhe entrava na cabeça. Papel em branco. Algo que pode ser preenchido por qualquer pensamento ridículo, qualquer imagem, qualquer pornografia.
Verdade é que qualquer papel é bonito - não sendo em branco.
Por sorte, tinha guardado o papel que veio na caixa de sapatos...Muito fino, mas resistente. Aliás, gostava muito dessas antíteses, dos 'entra-e-sai', 'abre-e-fecha'. Adorava o agridoce, e muitas vezes o inventava. Mas os paradoxos lhe sufocavam...Não que fossem demais pra sua cabeça; era capaz de compreendê-los. Senti-los é que era sufocante, como se o corpo não suportasse a quantidade de extremos, de opostos.
As antíteses lhe serviam.
Viu, então, que as pessoas eram papel. Eram escritas, lidas e relidas. Deletáveis, combustíveis. A maioria ainda em branco.
Por vezes puxava pela memória coisas que já tinham acontecido; suas cicatrizes. Se livrara de muitas ao evitar viver as pessoas. Todas tinham navalhas, e sua pele é muito fina.
Os dois últimos anos tinham sido muito conturbados. Metade de sua vida tinha sido alterada pelas possibilidades de como viver a outra metade. Talvez. É.
É; talvez.
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Um comentário:
é sempre incrivel o que vc escreve, mas dessa vez vc usou uma estética que me agrada muito, como sei lá, eu comparo a algo decadente, retorcido, algo com muita forma, mas que se fragmenta, como uma imagem sem alguns pedaços, ou uma coisa escrita de maneira quebrada, atonante, manja?
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