"Como uma casa não tinha papel?"
A idéia não lhe entrava na cabeça. Papel em branco. Algo que pode ser preenchido por qualquer pensamento ridículo, qualquer imagem, qualquer pornografia.
Verdade é que qualquer papel é bonito - não sendo em branco.
Por sorte, tinha guardado o papel que veio na caixa de sapatos...Muito fino, mas resistente. Aliás, gostava muito dessas antíteses, dos 'entra-e-sai', 'abre-e-fecha'. Adorava o agridoce, e muitas vezes o inventava. Mas os paradoxos lhe sufocavam...Não que fossem demais pra sua cabeça; era capaz de compreendê-los. Senti-los é que era sufocante, como se o corpo não suportasse a quantidade de extremos, de opostos.
As antíteses lhe serviam.
Viu, então, que as pessoas eram papel. Eram escritas, lidas e relidas. Deletáveis, combustíveis. A maioria ainda em branco.
Por vezes puxava pela memória coisas que já tinham acontecido; suas cicatrizes. Se livrara de muitas ao evitar viver as pessoas. Todas tinham navalhas, e sua pele é muito fina.
Os dois últimos anos tinham sido muito conturbados. Metade de sua vida tinha sido alterada pelas possibilidades de como viver a outra metade. Talvez. É.
É; talvez.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
Afinal, ele é um José.
José é um José como tantos outros. Gosta da vida...daquela sensação das coisas novas, das conquistas e da liberdade.
Afinal, ele é um José.
Não consegue ficar só. Digo; até consegue - e gosta -, mas prefere se espalhar em forma de pedaços, em troca de tantos outros pedaços, quase de graça e sem muito esforço. Acaba que os pedaços, para o José, são como aquele chocolate que não tem como ficar sem comer muito tempo, mas que nunca dá pra comer muito de uma vez só.
Algumas vezes os pedaços do José ferem os mais sensíveis, cortando de leve...incomodando no começo, mas logo se tornando apenas qualquer outro pedaço igual ao de qualquer outro José.
E os pedaços do José, de tão espalhados, se tornam miúdos. Praticamente insignificantes.
Afinal, ele é um José.
O que o José não sabe é que quem é de verdade em tudo o que faz não gosta só de pedaços de alguém - muito menos de Josés. Gosta mesmo é do completo; do que é inteiro. do que satisfaz.
E o pequeno pedaço dele, amostra grátis apenas, não sacia sequer o desejo que o José traz em si...Quem dirá o desejo de quem (por sorte ou azar) o aceitou.
Típico de um José.
De um Zé, na verdade.
Afinal, ele é um José.
Não consegue ficar só. Digo; até consegue - e gosta -, mas prefere se espalhar em forma de pedaços, em troca de tantos outros pedaços, quase de graça e sem muito esforço. Acaba que os pedaços, para o José, são como aquele chocolate que não tem como ficar sem comer muito tempo, mas que nunca dá pra comer muito de uma vez só.
Algumas vezes os pedaços do José ferem os mais sensíveis, cortando de leve...incomodando no começo, mas logo se tornando apenas qualquer outro pedaço igual ao de qualquer outro José.
E os pedaços do José, de tão espalhados, se tornam miúdos. Praticamente insignificantes.
Afinal, ele é um José.
O que o José não sabe é que quem é de verdade em tudo o que faz não gosta só de pedaços de alguém - muito menos de Josés. Gosta mesmo é do completo; do que é inteiro. do que satisfaz.
E o pequeno pedaço dele, amostra grátis apenas, não sacia sequer o desejo que o José traz em si...Quem dirá o desejo de quem (por sorte ou azar) o aceitou.
Típico de um José.
De um Zé, na verdade.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Opostos.
Vivo em mundos.
O primeiro possui as minhas texturas,
As minhas cores e as várias asperezas.
É nele que eu repouso.
O segundo é traiçoeiro;
Se mostra leve, muito antes sendo cortante.
É nele que me perco.
Separá-los; não consigo.
Ao me cansar do primeiro
Tento abstraí-lo.
Ao me cansar do segundo,
Busco o primeiro.
Me cansando de ambos...
Busco tantos outros mundos
Que na maioria das vezes
Perco o caminho.
O primeiro possui as minhas texturas,
As minhas cores e as várias asperezas.
É nele que eu repouso.
O segundo é traiçoeiro;
Se mostra leve, muito antes sendo cortante.
É nele que me perco.
Separá-los; não consigo.
Ao me cansar do primeiro
Tento abstraí-lo.
Ao me cansar do segundo,
Busco o primeiro.
Me cansando de ambos...
Busco tantos outros mundos
Que na maioria das vezes
Perco o caminho.
O mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder.
Há muito, eu era alguém que tinha medo de dizer o que pensava, e que permitia que sua voz não fosse ouvida. Aceitava [quase] tudo de cabeça bem baixa.
Com o tempo, com a vivência, fui aprendendo a ter voz.
Mais que isso: fui aprendendo que o que eu penso me faz única, e que partilhar do meu pensamento não significa subtraí-lo, mas adicioná-lo, incluir novas visões. Novos olhos.
E hoje, é raro ter algo ou alguém que me cale, que diminua minha voz.
Em conversas eu nunca fiz questão de esconder meu ponto de vista, por mais que as minhas opiniões fossem contrárias às dos outros.
Falo sim, porque meu pensar é algo só meu, algo que lá no fundo só eu posso desenvolver. Meu pensamento é uma parte abstrata do meu eu, que reflete sempre na minha essência concreta.
Pensamentos, quando compartilhados, não são subtraídos. Eles são adicionados, unindo pequenos pedaços para que cada um se espalhe por aí, na mente dos outros, sem que nunca tenham saído da sua.
Minhas idéias, opiniões...meu tudo se torna, então, meu mundo. Um mundo que eu não calo; que eu deixo gritar...e que muitas vezes estremece tantos outros mundos. Mas, por tornar meu mundo a minha voz, por vezes tenho de carregá-lo. Sempre comigo, sim; não importa. Mas dizer que é leve seria mentir.
O que me surpreende é que, de tão pouco receptivas que as pessoas são, nem o mundo dos outros elas aceitam. Ou, ao menos, respeitam.
Com o tempo, com a vivência, fui aprendendo a ter voz.
Mais que isso: fui aprendendo que o que eu penso me faz única, e que partilhar do meu pensamento não significa subtraí-lo, mas adicioná-lo, incluir novas visões. Novos olhos.
E hoje, é raro ter algo ou alguém que me cale, que diminua minha voz.
Em conversas eu nunca fiz questão de esconder meu ponto de vista, por mais que as minhas opiniões fossem contrárias às dos outros.
Falo sim, porque meu pensar é algo só meu, algo que lá no fundo só eu posso desenvolver. Meu pensamento é uma parte abstrata do meu eu, que reflete sempre na minha essência concreta.
Pensamentos, quando compartilhados, não são subtraídos. Eles são adicionados, unindo pequenos pedaços para que cada um se espalhe por aí, na mente dos outros, sem que nunca tenham saído da sua.
Minhas idéias, opiniões...meu tudo se torna, então, meu mundo. Um mundo que eu não calo; que eu deixo gritar...e que muitas vezes estremece tantos outros mundos. Mas, por tornar meu mundo a minha voz, por vezes tenho de carregá-lo. Sempre comigo, sim; não importa. Mas dizer que é leve seria mentir.
O que me surpreende é que, de tão pouco receptivas que as pessoas são, nem o mundo dos outros elas aceitam. Ou, ao menos, respeitam.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
- Sabe a garota do copo de água?
- Sei...parece distante. Talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não. Em um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário. Talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?
(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)
A água do copo secou e a garota descobriu que quem sentia sede era ela.
- Em alguém do quadro?
- Não. Em um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário. Talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?
(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)
A água do copo secou e a garota descobriu que quem sentia sede era ela.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Amo como ama o amor.
Uma das poucas coisas que sei sobre mim, e que nunca mudou, é a vontade de sempre querer amar. Não importa se é alguém ou algo: busco sempre um ou outro para ser objeto do meu amor.
Por si, o amor nunca está só. Nunca consegui conceber a idéia de que o amor é um sentimento apenas, e não uma mistura de tantos outros - muitas vezes opostos. Talvez seja por isso que amar é exaustivo, mas indispensável.
Não sou seduzida por suas grandiosidades e extravagâncias; estas apenas me surpreendem. O que me faz explodir por dentro é como o corpo que ama sempre busca a coisa amada; olhando, tocando, abraçando. Querendo sentir. É essa minimidade do amor, com seus gestos constantes. Sua frequência quase imperceptível, mas fundamental.
O fato é que o amor nunca me foi cotidiano.
E, mesmo buscando incansavelmente por formas de multiplicar e dividir meu amor, minha vida se constitui basicamente da fugacidade e inconstância da paixão, do momento.
Afinal, não há como amar só.
Por si, o amor nunca está só. Nunca consegui conceber a idéia de que o amor é um sentimento apenas, e não uma mistura de tantos outros - muitas vezes opostos. Talvez seja por isso que amar é exaustivo, mas indispensável.
Não sou seduzida por suas grandiosidades e extravagâncias; estas apenas me surpreendem. O que me faz explodir por dentro é como o corpo que ama sempre busca a coisa amada; olhando, tocando, abraçando. Querendo sentir. É essa minimidade do amor, com seus gestos constantes. Sua frequência quase imperceptível, mas fundamental.
O fato é que o amor nunca me foi cotidiano.
E, mesmo buscando incansavelmente por formas de multiplicar e dividir meu amor, minha vida se constitui basicamente da fugacidade e inconstância da paixão, do momento.
Afinal, não há como amar só.
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